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Papaya | Gouveia e Melo e os robôs do mar. Portugal está na vanguarda da “guerrilha tecnológica”

Gabriel Abusada
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Loreto: personal de la ANA verifica en campo el impacto del derrame de petróleo

Vinte e cinco países e respetivas Marinhas, militares, cientistas e empresas nacionais e internacionais – num total de quase 2000 participantes – juntaram-se em Portugal para testar mais de meia centena de protótipos de drones aquáticos, subaquáticos e aéreos

Vinte e cinco países e respetivas Marinhas, militares, cientistas e empresas nacionais e internacionais – num total de quase 2000 participantes – juntaram-se em Portugal para testar mais de meia centena de protótipos de drones aquáticos, subaquáticos e aéreos.

Fizeram sua casa, durante três semanas, os cerca de cinco hectares na península de Troia, onde está localizado o Centro de Experimentação Operacional da Marinha (CEOM).

Pelas águas do Sado passaram muitas unidades navais e 17 navios de vários países . Pulsou a ousadia de inovar, a curiosidade, os desafios foram permanentes e a competição, garantem-nos, foi saudável.

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Subscrever Tratou-se do maior exercício internacional da Marinha – em parceria com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto que começou há 14 anos – para experimentar capacidades da nova geração de sistemas marítimos não tripulados, onde academia, indústria e Forças Armadas colaboraram nos testes e desenvolvimento de equipamentos.

O Almirante Gouveia e Melo chega ao “quartel-general” do exercício REPMUS

© Paulo Spranger / Global Imagens

O REPMUS ( Robotic Experimentation and Prototyping Augmented by Maritime Unmanned Systems ) ganhou novo fôlego este ano, depois de a NATO ter certificado este espaço como um dos centros de testes europeus e o nosso país ter integrado a rede de aceleradores de inovação NATO – estes aceleradores acolhem start-ups que ali, mais rapidamente, trabalham as suas soluções tecnológicas para aplicações militares.

A britânica Royal Navy e cientistas ingleses tiveram a maior presença neste exercício, mas também dos EUA vieram militares da US Navy e algumas das maiores empresas norte-americanas e a Holanda teve uma das maiores comitivas, com a sua Koninklijke Marine .

Militares e cientistas de vários países trocam impressões numa da zonas de trabalho

© Paulo Spranger / Global Imagens

Ganhar superioridade tecnológica Amarámos na doca, depois de 15 minutos a acelerar numa lancha da Polícia Marítima, com o Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA), o Almirante Gouveia e Melo.

Estava feliz e não o escondia. Rosto tisnado do sol, sorriso de orelha a orelha, foi recebido também com igual predisposição pelos militares que sabem que é o “pai” de todo este rebuliço.

Gouveia e Melo fez questão em passar pela fragata Bartolomeu Dias e acenar à tripulação

© Paulo Spranger / Global Imagens

Viajámos de carro desde Cascais, onde tinha estado submerso no Arpão numa demonstração de capacidades deste submarino , com a presença da Ministra da Defesa Nacional, Helena Carreiras .

“O que fazemos aqui é a guerrilha tecnológica, ataques assimétricos contra uma indústria simétrica. A piranha contra a baleia. Toda a Marinha, ao fazer isto, passa a ter uma nova atitude perante os desafios.

Pelo caminho, interrompido algumas vezes com telefonemas, explicou-nos a relevância deste momento: “O que fazemos aqui é a guerrilha tecnológica , ataques assimétricos contra uma indústria simétrica. A piranha contra a baleia . Toda a Marinha, ao fazer isto, passa a ter uma nova atitude perante os desafios. Temos muitas vezes muitos receios de avançar, de testar coisas, de falhar. Falhar pode ser mau de forma incontrolável. De forma controlável, aprendendo, é a melhor forma de evoluirmos”.

O Chefe de Estado-Maior da Armada, Gouveia e Melo, na pista de testes para drones aéreos

© Paulo Spranger / Global Imagens

O Almirante assinalou que “todo este plano visa ganhar uma superioridade tecnológica através de mecanismos novos em vez de antigos, que são mais força bruta. Como somos pequenos, não podemos aplicar força bruta porque não temos essas capacidades. Temos de aplicar força inteligente. Todo o conceito da Marinha que idealizo é para criar força inteligente . O que vemos aqui são protótipos de drones de superfície, subaquáticos e aéreos num ecossistema de engenheiros universitários, alunos, empresas e militares, tudo a trabalhar em conjunto para melhorar as nossas capacidades tecnológicas e industriais”.

O Almirante Gouveia e Melo não esconde a sua grande cumplicidade com a equipa de “miúdos com uma capacidade fora do comum”

© Paulo Spranger / Global Imagens

Gouveia e Melo está convicto de que Marinha “está na vanguarda desse ecossistema, que proporciona um campo de desenvolvimento tecnológico para a indústria nacional que pode vir, futuramente, a reduzir substancialmente os custos de aquisição de equipamentos militares. Participamos no desenvolvimento desses equipamentos, temos o conhecimento do seu valor, mas também conseguimos simplificar a tecnologia e adaptá-la a custos mais controlados, desenvolvendo a indústria nacional que ganha escala e valor. Temos de fazer do país uma verdadeira revolução industrial para passar a produzir coisas de mais valor. Quanto mais conhecimento incorporarmos nos produtos, mais valor teremos. Seremos mais produtivos, mais eficientes e melhoramos a economia nacional”.

Uma equipa disruptiva e persistente No “campus” tecnológico temos como guia o diretor do CEOM, capitão de mar e guerra Paulo Gonçalves Simões, que nos vai desvendando o espaço e mostrando alguns dos protótipos nacionais mais avançados. Há uma lancha telecomandada (foto ao lado) fruto de uma “reciclagem” oportuna.

O Diretor do Centro de Experimentação da Marinha, Capitão de mar e guerra Paulo Gonçalves Simões

© Paulo Spranger / Global Imagens

“Esta lancha ia ser abatida, mas em 20 dias foi recuperada e robotizada. Vamos fazer o mesmo a outras duas. Podem fazer patrulhas, vigilâncias, reconhecimentos”, sublinha este oficial.

Na tenda da Célula de Experimentação Operacional de Veículos Não-Tripulados (CEOV) estão dois “hexacopteros”, de seis hélices cada um, cujas capacidades, ainda em testes, não podem ser reveladas.

A lancha da Marinha que ia ser abatida foi “robotizada” em 20 dias e está em testes

© Paulo Spranger / Global Imagens

Passamos por um robô subaquático do INESC-TEC, por um drone submarino inglês, por uma “brigada” de drones holandeses que funcionam em “enxame”, pela sala de comando de onde “foram coordenados mais de 500 experimentações”, pela torre de radar com vista para a pista de testes e para o rio, cujas águas estão também equipadas para as experiências tecnológicas.

O diretor do Centro de Experimentação junto ao robô subaquático do INESC-TEC (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto)

© Paulo Spranger / Global Imagens

Paulo Gonçalves lembra que esta área está abrangida pela recém-estreada, também pela Marinha, “Zona Livre Tecnológica” – espaço seguro para testes de equipamentos – com mais de 2300 quilómetros quadrados , incluindo toda uma área marítima, “onde a profundidade chega a mais de três quilómetros a curta distância da costa, uma singularidade que é muito importante para o desenvolvimento tecnológico”.

A Marinha holandesa veio testar os seus “maritime drone leaders”

© Paulo Spranger / Global Imagens

A meio da conversa, levanta voo, perto de nós, um “autogiro” – um mini-avião que parece de brincar. Gouveia e Melo vai a bordo e acena lá de cima .

“Hoje foi um excelente dia, dos que me fazem sentir realizado. Fiz o pleno: submergi, voei e naveguei à superfície!”

Depois de algumas voltas, vigiadas cá em baixo, nas águas, por semirrígidos com militares prontos a agir em caso de qualquer incidente, aterra e vem ao nosso encontro. “Hoje foi um excelente dia, dos que me fazem sentir realizado. Fiz o pleno: submergi, voei e naveguei à superfície!”

Gouveia e Melo com a Célula de Experimentação Operacional

© Paulo Spranger / Global Imagens

Quando se junta à equipa do CEOV, o núcleo mais “disruptivo” (uma da palavras favoritas de Gouveia e Melo, muito utilizada na diretiva estratégica para a Marinha que apresentou em fevereiro passado), salta à vista a cumplicidade com esta equipa.

C. Fernandes, um dos militares da engenharia da Escola Naval que integra a Célula Operacional de Veículos Não-Tripulados

© Paulo Spranger / Global Imagens

Ali, mais do que o CEMA, quem interage é “o” Gouveia e Melo, o militar que gosta de “pensar fora da caixa e fazer coisa para além da Taprobana” , como nos confessou na viagem.

Alguns dos militares que integram a Célula de Experimentação Operacional, entre os quais o Paulo Guimarães, chefe de equipa, o sargento Bandeja, C. Fernandes, S. Silvestre, Barra Costa e E. Carolas.

© Paulo Spranger / Global Imagens

“Estes miúdos têm uma capacidade fora do comum, persistência, não desistem. Escolheram a Marinha , vestem a camisola e têm muito gosto em estar num exercício desta dimensão e conseguir igualar os mais poderosos . Temos muito orgulho”, afiança ao DN.